História de como surgiu Cerâmica Santana

Faço cerâmica desde 2004. Tudo começou quando eu procurava emprego, na época eu tinha 18 anos. Eu não conseguia um emprego e estava precisando de uma renda. Foi então que um amigo me falou de uma ONG que estava criando um projeto de geração de renda. Fui, fiz a inscrição e comecei.

Era uma oficina de produção de vassoura de garrafa pet, essa era a proposta da ONG para o projeto de geração de renda. Só que pra fazer a vassoura, era preciso dar um choque térmico na cerda da garrafa pet, aí eles compraram um forno. Só que esse forno que eles compraram, servia para dar mais que um choque. Ele queimava a 1200 graus, uma temperatura que dava para queimar a cerâmica e criar uma oficina de cerâmica também.

Daí um aluno da escola guignard, Marcelo Alberte, propôs a oficina de cerâmica. Eu achei a oficina de cerâmica muito mais interessante, entrei e comecei a fazer ali as pecinhas.

Como qualquer uma pessoa que inicia na cerâmica, as pessoas não ficaram tão bonitas… ficaram legais, eu curti e gostava muito, mas a ideia que era de gerar renda mesmo, nunca gerou. Nunca tive dinheiro nenhum com a cerâmica naquela época e isso foi meio pesado pra mim, porque eu precisava de grana. Porém, foi o bastante para eu me apaixonar pela cerâmica.

As pessoas foram saindo da oficina, pois ela não gerava renda e só eu e mais uma pessoa ficou. Começamos a fazer propostas para o espaço e começar a dar cursos na escola guignard, pois já tínhamos toda a aquela ideia, A gente produzia, queimava, finaliza e propunha estudos sobre a cerâmica no espaço também. Isso durou até 2009, daí a ONG não tinha mais grana para investir na cerâmica e teve que acabar com a oficina.

Em paralelo a isso tudo, eu trabalhava de garçom. Sempre trabalhei de garçom em vários bares de BH. Eu estava juntando grana pra comprar um carro e consegui comprar, foi 30 mil na época. Então, quando eles falaram: “A oficina vai acabar, não vai ter mais jeito.”, eu peguei esse carro e vendi, consegui uns 28 mil. Com o dinheiro eu comprei forno, matéria prima, torno e fiquei zerado, sem grana.

Foi trabalhando em restaurantes e bares que comecei a ter vontade de produzir peças que podiam ser usada na cozinha, pois a gente usava muito prato antiquado, de vidro, algumas vasilhas de plástico. Então vi que essa cerâmica poderia ser usada na cozinha. Eu achava muito bonita. Comecei a fazer, a tirar algumas fotos, postar e a galera começou a curtir, perguntar muito sobre as peças.

Daí, algumas pessoas influentes na gastronomia, começaram a ver e a pedir, mesmo não tendo padrão e não sendo um trabalho profissional. Hoje em dia tem a cerâmica profissional, né? Mas eles gostaram, então eu comecei a vender esse trabalho mesmo sem estrutura.

Foi meio complexo no início, deixar esse trabalho bem redondo, porque tem que ter padrão. Ninguém compra um monte de peças sem um padrão. Foi meio tenso assim. Mas a gente tá conseguindo configurar agora. Depois desse tempo todo, né?

Chegamos em 2014 e conseguimos criar as peças com qualidade. Com a qualidade que todo restaurante precisa. Começamos também a fazer estudos com a composição do esmalte, com o tipo de queima que precisa ser executado, a espessura das peças e da massa.

Agora, nesse ano, a gente conseguiu chegar num ponto em que as peças são bem profissionais. Estamos no padrão de grandes grupos que produzem cerâmica para os maiores chefs do mundo. Se colocarmos uma peça de um lado, uma peça do outro e fizermos uma comparação, a nossa peça está bem bacana em relação às das outras pessoas.

Por que a Serra da Moeda?

A relação da Cerâmica Santana com a Serra da Moeda é a seguinte:

A Serra da Moeda em breve vai se tornar o pólo dos ceramistas. A maior parte dos ceramistas conceituados que já tem um tempo de trabalho no mercado e nas galerias, que estão fora do Brasil inclusive, tem um atelier lá.

A Serra é um ambiente de estudo para cerâmica, um ambiente de possibilidades, e quando você pega esse trabalho, a cerâmica utilitária, a cerâmica que é padronizada e leva para um ambiente artístico, onde tem várias pessoas que chegam para agregar e criar uma fusão artística ali, isso fica maravilhoso.

Você acaba criando um produto que vai chegar na mesa de um restaurante, não como uma louça convencional, até porque a cerâmica já sai disso, mas com uma narrativa diferente, com a influência do esmalte que é feito a base da madeira, o esmalte que é feito com uma base de uma terra retirada na Serra da Moeda, de um minério que é retirado dali. Por exemplo: chega com uma textura das plantas da Serra. São “n” possibilidades.

A queima da cerâmica na Serra da Moeda

A queima que normalmente é realizada aqui na cidade é feita com forno elétrico, que é uma atmosfera de oxidação. Na Serra da Moeda, por ser um ambiente amplo, com vegetação, com muita circulação de oxigênio, bem aberto, são construídos fornos a gás, que dá uma queima de redução, uma queima onde entra bastante oxigênio.

O forno elétrico ele é fechado, mas o forno a gás não, ele tem uma chaminé ali e sempre quando tá em 900 graus, 1200, 1240 graus, é feito uma redução. A abertura na chaminé, permite a entrada de muito oxigênio e as moléculas se misturam e fazem criar uma outra reação no esmalte, como um Big Bang. Quando entra oxigênio ali, em contato com o fogo, ele abre as moléculas do esmalte.

A reação do ferro é diferente. A reação do óxido de cobalto é diferente. Aquilo que era pra dar verde, dá um vermelho perolado, uma mistura diferente.

São peças únicas. Não tem jeito de recriar. Não tem jeito de padronizar. Padronizamos um modelo, mas a reação, a finalização… ali quem vai mandar é o forno, a atmosfera, o lugar inclusive, sabe?

A gente conta com a opinião e o direcionamento dos grandes ceramistas que tem na Serra da Moeda. Eles chegam e falam: “Isso poderia ser feito dessa forma”, “ou desse jeito”, “eu gosto dessa forma”, “isso me lembra aquele trabalho que eu fiz lá em 2005, la em 1900…”. Eles vão direcionando e é justamente isso que faz nosso trabalho ser tão contemporâneo, junta essa questão do passado e do presente, e que vai para a mesa do chefe e ali ele tem a possibilidade de fazer essa junção junto com o trabalho conceitual dele com os alimentos.

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